Venezuela: Líder do partido da oposição Vente Venezuela demarca-se de Juan Guaidó

A líder do partido da oposição Vente Venezuela, María Corina Machado, demarcou-se hoje de Juan Guaidó, e da sua proposta de "pacto unitário" para a oposição, que acusou de ser uma manobra de distração, disfarçada de unidade. “É meu dever enfrentar...

Venezuela: Líder do partido da oposição Vente Venezuela demarca-se de Juan Guaidó
A líder do partido da oposição Vente Venezuela, María Corina Machado, demarcou-se hoje de Juan Guaidó, e da sua proposta de "pacto unitário" para a oposição, que acusou de ser uma manobra de distração, disfarçada de unidade. “É meu dever enfrentar qualquer agenda de distração, disfarçada de unidade. Assim o farei”, afirmou María Corina Machado, numa carta, que tornou pública, dirigida ao líder da oposição Juan Guaidó. A declaração foi divulgada depois de um encontro entre os dois dirigentes opositores, realizado no sábado. Guaidó propôs, há duas semanas, a assinatura de um pacto unitário da oposição, para "rejeitar a fraude parlamentar", referindo-se às eleições convocadas pelo Governo de Nicolás Maduro, para o próximo dia 6 de dezembro. A proposta dirigiu-se então a diferentes organizações e líderes opositores ao regime, entre os quais o ex-candidato presidencial Henrique Capriles Radonski, o ex-presidente do município de Caracas António Ledezma e o líder do partido Vontade Popular, Leopoldo López, com o objetivo de contribuírem com “visões” para um caminho comum. “Tinha a expectativa de ouvir uma proposta diferente, pelo bem do país e pelo bem de cada um de nós", explicou María Corina Machado, a propósito do pacto unitário pretendido por Guaidó. "Perante a pergunta sobre conseguirmos uma articulação, a resposta é não”, afirmou a opositora, num vídeo divulgado na sua página na rede social Twitter, na Internet. Na carta hoje divulgada, Corina Machado sustenta: "O país tem muito claro que enfrentamos um regime criminoso, já não há mais nada a consultar. O país tem muito claro que estes criminosos não saem [do poder] com votos". “[Juan Guaidó] tem 120 dias para fazer o que não foi feito em 17 meses”, prossegue María Corina Machado, referindo-se ao início da próxima sessão legislativa, após as eleições anunciadas para 6 de dezembro, e à data de janeiro de 2019, quando Guaidó jurou assumir as funções de presidente interino, até afastar o Presidente Nicolás Maduro do poder. “O que acontecerá a 5 de janeiro [de 2021] não será a angústia do povo. O que acontecerá amanhã é o que precisa ser feito hoje. (...) Estamos perante um regime criminoso, não há mais nada a consultar” acrescentou a líder do Vente Venezuela. María Corina Machado sublinhou ainda que Juan Guaidó não “tem podido ou querido” cumprir com uma tarefa que o povo lhe encomendou, para "sair do regime”, o que “requeria construir uma opção de força" e, para isso, revestia-se de importância ativar "o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca [TIAR]". “O tempo perdido causou retrocessos. Assim vários países [que] votaram pela ativação do TIAR, hoje estão revendo a sua decisão. Há alguns dos 60 países que o reconheceram [a Guaidó] como presidente interino, que estão propondo falsas soluções com diálogos impossíveis ou eleições com as máfias no poder”, explica. María Corina Machado insta assim Juan Guaidó a romper vínculos com “corruptos” que se “infiltraram ou financiaram” a oposição, e que apostam “numa possível participação em eleições fraudulentas com o propósito de prolongar a permanência de [Nicolás] Maduro no poder”. “Juan, tu és o governo de emergência nacional ou, pelo menos, deverias ter sido”, afirmou. Juan Guaidó, por seu lado, respondeu a María Corina, através do Twitter, vincando a importância de uma unidade da oposição e dos poderes legítimos, com o apoio do povo e da comunidade internacional. “Não há outra rota. O meu dever é construir essa unidade para sair da ditadura. Quem pensa que pode conseguir isso sozinho ou legitimando uma fraude [eleitoral], ajuda a Maduro”, escreveu Guaidó. A crise política, económica e social na Venezuela agravou-se desde janeiro de 2019, quando o líder opositor e presidente do parlamento, Juan Guaidó, jurou publicamente assumir as funções de presidente interino do país até afastar Nicolás Maduro do poder, convocar um governo de transição e eleições livres. Em julho, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) da Venezuela suspendeu a direção do partido Vontade Popular (VP) e ordenou a sua reestruturação, elevando para três as organizações políticas da oposição alvo de medidas semelhantes desde meados de junho. A 16 de junho o STJ suspendeu a direção de dois outros partidos da oposição, o Primeiro Justiça (PJ) e Ação Democrática (AD), ordenando que sejam reestruturados. A decisão do STJ - considerado pela oposição como "o braço jurídico da ditadura" - foi classificada pelos opositores de Maduro como uma manobra de preparação “para uma nova farsa eleitoral”, em que o regime decidirá quem preside os partidos nas próximas eleições legislativas, previstas para 6 de dezembro. A 12 de junho último o STJ nomeara igualmente novas autoridades do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela, uma semana depois de retirar os poderes da Assembleia Nacional para as eleger e depois de anunciar que assumiria o processo.