“Estamos a ver o preço a descer cada vez mais”

Presidente da Coopesca Madeira afirma que os pescadores estão preocupados com a descida do preço do atum, 
em lota. Já a Secretaria Regional de Mar e Pescas assegura que o preço médio do pescado tem se mantido “equilibrado”. Atum [email protected]

“Estamos a ver o preço a descer cada vez mais”
Presidente da Coopesca Madeira afirma que os pescadores estão preocupados com a descida do preço do atum, 
em lota. Já a Secretaria Regional de Mar e Pescas assegura que o preço médio do pescado tem se mantido “equilibrado”. Atum [email protected] “Estamos a ver o preço [do atum] a descer cada vez mais”. O lamento é de Jacinto Silva, presidente da Coopesca Madeira - Cooperativa de Pesca do Arquipélago da Madeira, que indicou ao JM que nesta altura do ano o atum está a ser vendido, na lota, “a cerca de dois euros e vinte cêntimos ao quilo”, preço “mais baixo” do que o praticado no período homólogo do ano passado. Importa dizer que, naturalmente, este valor poderá variar mediante a espécie e tamanho do peixe. Contudo, a quantia apontada pelo responsável da Coopesca Madeira é diferente dos dados que nos foram fornecidos pela Secretaria Regional de Mar e Pescas (SRMar) [ver tabela] que, entre as principais espécies de atum capturadas na Madeira [patudo, rabilho e voador], afirma que em 2021 o preço médio anda entre os três euros e sete cêntimos e os quatro euros e setenta e três cêntimos, ao quilo. Ou seja, mais de 80 cêntimos em comparação com o valor assinalado por Jacinto Silva. Questionada pelo JM, a SRMar não quis tecer comentários sobre a discrepância entre as importâncias que apresentou e as do presidente da Coopesca. No entanto, frisou que as médias lançadas por si têm por base o número de descargas feitas em lota. A Secretaria tutelada por Teófilo Cunha notificou ainda que o valor médio do pescado na Madeira, onde se insere o atum, tem se mantido “equilibrado”, entre os anos de 2018 a 2020, ou seja, antes e durante a pandemia, apresentando oscilações que “variam apenas entre os 20 e 50 cêntimos/quilo” no preço da primeira venda [em lota]. Ora, este é um cenário um pouco diferente daquele que foi exposto pelo responsável da Coopesca, que, por seu turno, recordou que no ano transato, em plena pandemia, “os preços foram melhores do que este ano”. Assinalou, inclusive, que atualmente estão a vender “o atum mais barato” do que em 2021, havendo “uma quebra de cerca de 25%” em relação ao ano que passou. Nesse sentido, Jacinto Silva defende que o preço justo de venda do atum, em lota, seria entre dois euros e meio e os três euros e meio, valores que foram, aliás, “praticados em 2020”. A par deste decréscimo, soma-se ainda o aumento do preço dos combustíveis que em nada abonou a favor do setor. “Os combustíveis estão cada vez mais caros, aumentaram significativamente em relação a 2020, e, por outro lado, o preço do peixe segue sempre a baixar”, lamentou o responsável, adiantando que as previsões futuras não se avizinham melhores. “Vemos os preços a descer cada vez mais e, segundo aquilo que temos ouvido, o próximo peixe será vendido ainda mais barato”, destacou. Apreensivo com a situação, Jacinto Silva expôs, também, que não há nenhum dia em que um pescador ou armador não lhe bata à porta a se queixar do contexto atual. “Estamos preocupados porque temos uma quota pequena e, infelizmente, as quantias estão desta maneira. Assim não vamos a lado nenhum”, alertou. Mas, se na Madeira o preço do atum tem causado alguma apreensão, nos Açores a situação não é melhor. De acordo com o jornal Açoriano Oriental, a Federação das Pescas dos Açores está preocupada com as quebras de preço do atum e de outras espécies mais cotadas, estimando quebras de rendimentos de cerca de 30% até ao final do ano. Todavia, o presidente da Coopesca assegura que a quebra de preço do atum em solo regional “não é tão acentuada”, salientando que os parâmetros de venda naquele arquipélago são diferentes dos da RAM. “Vendemos peixe a 2 euros” A diferença de preços na lota (onde acontece a receção do peixe) e nos postos de venda continua a ser uma problemática. E, uma vez mais, Jacinto Silva defende a urgência da criação de uma entidade reguladora, a qual possa por uma margem de lucro, sem que haja exageros. “As pessoas vão ao supermercado e vêm o atum a seis/sete euros ao quilo e pensam que o pescador está a ganhar muito dinheiro, mas a verdade é que nós vendemos peixe a dois euros na lota”, lembrou. Neste ponto, a tutela esclarece que “o Governo Regional ou a Secretaria Regional de Mar e Pescas não têm competências para fixar preços”, isto porque “o preço do pescado resulta das relações comerciais entre pescadores/armadores e comerciantes”, ou seja, o valor “é estabelecido através deste circuito, sem nenhuma interferência governamental”, sublinhou. FOTO JOANA SOUSA